Sinto-me cego, como se uma certa finitude se tivesse instalado aqui, mesmo no meio da sala. Qual elefante se nem me basto para uma existência só. Apenas é, penso eu, uma tremura passageira, uma comichão que persiste por mais um bocado. É secura, aspereza no gesto,  contorcendo o corpo, da cama ao sofá, arrastando a manta, como se toda a existência dependesse de cada junta do chão conseguir ser evitada.

Pouso o cansaço, acomodo a lucidez, deixo cair o braço lentamente, como achaque de donzela aos primeiros calores. Afadigo-me aqui porque ali também já tentei, sei lá. É desarranjo, um desmanche que acaba em mim, mas que assim começa, encolhendo os ombros, desafiando a palidez do sol por entre as cortinas. 

É mal parido, mas um dia vou de vela, e que pavio não me falte para mais uma auto comiseraçãozinha com sabor a camomilas, cidreiras e demais unguentos. Fiz-me surdo e fui à vida, como quem arregaça as mangas para dar um par de tabefes e acaba a sorver uma canja. 

Acordado no sobressalto, porque não respiro, e aqui transpiro, mais além já nem recordo, talvez enregele no contraditório. A posologia indicada para a rouquidão, porque as dores são mais no âmago, e a alma não se compadece a bulas.

Sou um obstruído pela condição, resolver-me na falência, tomar em jejum antes que o pó me sedimente. Não há pressa, nem a vontade importa, que esta noite fez-se tarde e ainda me apetecia um doce. 

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