Eram já cinco, de uma madrugada perdida, de onde não se vislumbrava qualquer alma ou espécie. Soava a eternidade, de estômago colado e mãos vazias, cabendo no rosto uma solidão em efeito. Poderia um coração voltar a falar de amor, se todo o destroço não fosse maior que as paredes. Todo o ser, em túmulo, não cabia em si ou nas palavras que o fizeram refém. Era uma luz tão intensa, dizia-se, como num despertar, quando o corpo levita e todo o mal se desvanece. Do cheiro a terra revolta, a pasto molhado, quando o tempo se adensa e a névoa relembra o cobrir do rosto num cabelo húmido, do cheiro a pele, a uma saudade sentida mesmo na presença. Em desobediência, dançava na parca luz, trémula e delicada, riscando pouco a pouco, até todo o céu pegar fogo. Era já tarde e as horas tardavam a reencontrar o sentido. Os bichos, as coisas, as estrelas, esperava-se por algum sinal, mesmo errático, que o amor ainda existisse pelas ruas despidas de nós.
Eternamente a pouco me soa, quando aqui gravita todo um universo que se quer até ao fim. Se me estendo e nas mãos me entrego, envolvo e dissipo, não saberia sequer num instante conseguir fazer-me parar. Atinge-me a finitude, o medo incomensurável de não saber viver para lá dos meus pés. Na dor que o amor me faz, no caos que o bem me torna, deixar-me cair a seu lado, colhendo do regaço a matéria, a voz que sucumbe no espaço inerte. Tragando de si o anseio por matar esta fraqueza, serei todo o mal e apenas reflexo dos dias que correm à vez. Sinto a latência, o adornar, um corpo já de si disperso, numa espécie transfigurada de órbita descendente. A cada faúlha que o corpo liberta na reentrada, a vida se repete à frente dos olhos, esquecido de tudo o que deixo para lá da linha. Sou imaginado, cadente, centelha rasgando o profundo manto escuro. Sem nome que me chame para além da noite, talvez me guarde em desejo, no suspiro antes de, por fim, adormecer. Eternamente a pouco me soa, quando acima dos ombros existe todo um céu que não consigo tocar.
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