Eram já cinco, de uma madrugada perdida, de onde não se vislumbrava qualquer alma ou espécie. Soava a eternidade, de estômago colado e mãos vazias, cabendo no rosto uma solidão em efeito. Poderia um coração voltar a falar de amor, se todo o destroço não fosse maior que as paredes. Todo o ser, em túmulo, não cabia em si ou nas palavras que o fizeram refém. Era uma luz tão intensa, dizia-se, como num despertar, quando o corpo levita e todo o mal se desvanece. Do cheiro a terra revolta, a pasto molhado, quando o tempo se adensa e a névoa relembra o cobrir do rosto num cabelo húmido, do cheiro a pele, a uma saudade sentida mesmo na presença. Em desobediência, dançava na parca luz, trémula e delicada, riscando pouco a pouco, até todo o céu pegar fogo. Era já tarde e as horas tardavam a reencontrar o sentido. Os bichos, as coisas, as estrelas, esperava-se por algum sinal, mesmo errático, que o amor ainda existisse pelas ruas despidas de nós.
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